Conheça algumas soluções inovadoras para retirar lixo dos oceanos

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plástico faz parte das nossas vidas. Ele está na nossa rotina e em quase tudo o que usamos. Esse material até pode facilitar a nossa vida, mas também traz uma série de problemas ambientais, especialmente os que são de uso único. Você já parou para pensar onde todo o plástico descartado vai parar no fim do dia? Lembre que o “jogar fora” só tira da sua casa, mas não sai do planeta!

Muita gente tem o costume de limpar e separar os lixos em casa para a reciclagem. Mas, mesmo assim, ainda existem milhares de outros resíduos que são descartados de forma irregular. E dentre eles, os plásticos descartáveis são a principal fonte da poluição, pois existe um baixíssimo interesse em reciclar esse tipo de material.

Conheça alguns dos projetos que fazem a diferença para remover os resíduos plásticos de rios e oceanos:

1. Ecobarreira Arroio Dilúvio, Porto Alegre

Em Porto Alegre foi instalada uma ecobarreira no Arroio Dilúvio – um córrego da cidade. A barreira é uma estrutura flutuante, feita a partir de materiais reciclados e que foi instalada para ajudar na preservação do Lago Guaíba, que banha cinco cidades gaúchas, com alta importância ambiental, econômica e histórico cultural da região.

O objetivo da barreira é recolher o lixo flutuante que vem pelo córrego e impedir que chegue ao lago. Os resíduos retidos no local são recolhidos diariamente pelo Departamento Municipal de Limpeza Urbana.

Desde a sua implementação, em 2016, até hoje, já foram retiradas mais de 500 toneladas de resíduos plásticos. O projeto foi pioneiro na América Latina. Sendo mantido integralmente pela empresa SafeWeb, com apoio das Secretarias Municipais do Meio Ambiente e Sustentabilidade e a de Serviços Urbanos, além do professor Gino Gehling, do instituto de Pesquisas Hidráulicas da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).

2. Projeto Ecoboat/Renove

O projeto Ecoboat/Renove atua no Rio de Janeiro e consiste em um barco coletor de lixo. A embarcação conta com uma pá na proa, que ajuda a recolher os resíduos sólidos da água, com capacidade de até quatro toneladas de detritos.

Quando o contêiner lota, todo o material recolhido é descarregado em um caminhão, passando por um centro de triagem para reciclagem dos resíduos. Essa segunda parte do trabalho é feita por empresas devidamente licenciadas pelos órgãos ambientais competentes.

O Ecoboat já atuou no entorno do Cais do Porto do Rio de Janeiro, Píer Mauá (Museu do Amanhã), Ilha do Governador, Niterói e até mesmo na Ilha de Villegagnon, antes das competições de iatismo nos Jogos Olímpicos Rio 2016.

3. Eco barreira Rio Atuba

Em Curitiba, o Rio Atuba também ganhou uma ecobarreira para reter o lixo sólido que flutuava pelas águas do rio. O projeto foi desenvolvido por um morador da região.

Diego Saldanha aprendeu a nadar no rio Atuba e foi testemunha do acúmulo de lixo com o passar dos anos. Ele reuniu centenas de garrafas pet de dois litros em uma rede para criar a barreira flutuante, unindo uma margem do rio à outra e impedindo que detritos circulem livremente pela correnteza.

Desde a sua construção, em 2017, Diego estima já ter retirado cerca de três toneladas de lixo do rio.

4. Ecobarreira da Escola Municipal de Recife

Estudantes Escola Municipal Professor Antônio de Brito Alves, no Recife, também decidiram criar sua própria ecobarreira. O modelo também foi desenvolvido com garrafas pet unidas por um cabo, para reduzir a quantidade de resíduos sólidos no canal do ABC, que fica em frente à escola.

Os alunos foram orientados por quatro professores e começaram as pesquisas para desenvolver o projeto ainda em 2015. Eles constataram que cerca de 70% dos moradores da região não sabia quanto tempo o lixo leva para se decompor, e por isso jogavam resíduos no canal.

O projeto ganhou reconhecimento, conquistando primeiro lugar na Feira de Conhecimentos do Recife em 2018 e também credenciamento para uma feira de ciência e tecnologia no Paraguai neste ano.

5. Seabin Project

Seabin Project foi criado na Austrália pelos surfistas Andrew Turton e Pete Ceglinski. Eles se inspiraram então em máquinas que retiram folhas de piscinas para criar a Seabin, que, em termos básicos, é uma lata de lixo flutuante para capturar os resíduos do oceano. Para os idealizadores do projeto, uma grande lixeira no mar poderia ser a solução para recolher os resíduos poluentes.

Existem diversas Seabins espalhadas pelo mundo, principalmente na Europa. O sistema é barato e de baixa manutenção. E depois da coleta do lixo plástico, este é reciclado para servir de matéria-prima para uma nova Seabin. Assim, criando um efeito dominó para a limpeza das águas.

O aparelho pode ser colocado em rios, mares, ou ambientes controlados, como portos ou marinas, e suga a água e todos os resíduos, desde plásticos, papéis, metais, restos de alimentos e até mesmo óleo.

A máquina retém os materiais sólidos, e os líquidos passam por um cano e são filtrados, separando a água do óleo e de detergente. Depois desse processo a água, agora limpa, é devolvida.

6. Netting Trash Trap

Netting Trash Trap foi desenvolvida pela empresa Storm Waters System para capturar resíduos sólidos e lidar com o escoamento de águas pluviais em centros urbanos. Basicamente, são redes instaladas nas saídas de canos, para diminuir as descargas de lixo em sistemas de drenagem.

Essas redes retêm resíduos brutos a partir de 5 mm, incluindo materiais orgânicos, como folhas. Essa é uma solução econômica para a sujeira no escoamento das águas pluviais.

7. Hoola One

O projeto Hoola One foi desenvolvido por estudantes da Universidade Sherbrooke no Canadá pensando em remover não apenas os resíduos sólidos das águas, mas também os chamados microplásticos.

Os microplásticos são pequenos pedaços de plástico que poluem o meio ambiente. Não são parte de um tipo específico de material, mas qualquer fragmento com menos de 5 mm, que podem prejudicar a vida marinha tanto quanto os resíduos maiores.

Desenvolvido por estudantes de engenharia, o Hoola One é um aspirador gigante que remove os microplásticos das praias. A máquina suga a areia e armazena em um tanque de água. A areia afunda e separa-se do microplástico, que flutua no compartimento. Depois da separação, a areia volta para a praia e o plástico é coletado para a reciclagem. 

Seja com alta tecnologia envolvida ou apenas partindo da vontade de ajudar o planeta, cada projeto consegue fazer a sua parte na limpeza dos oceanos. E nós também podemos ajudar, com um consumo consciente do plástico e a destinação correta dos resíduos podemos mudar a realidade da Terra. Lembre-se: a mudança de hábito começa por você! O que você faz por um mundo mais limpo?

Artigo Original

As ODSs da ONU e a poluição marítima: o que temos a ver com isto?

A poluição é algo que só nos preocupa quando vemos, sofremos ou tememos. Por exemplo, o incêndio na Amazônia provoca reações na comunidade internacional porque é visto em vídeos e cria temor de consequências que atingiriam não apenas a população local, mas também residentes em países distantes.

A poluição do mar, à exceção daquela existente na costa litorânea, não é vista pela maioria da população. Geralmente ocorre a quilômetros do litoral, não causa revolta e seus efeitos são ignorados.

No entanto, nem por isso ela é menos importante. Afinal, “a imensa quantidade de substâncias lançadas nos oceanos produz o aparecimento de organismos que prejudicam o desenvolvimento da vida marinha e também comprometem o percentual de alimentos”.[ii] A explicação é singela, mas encerra graves consequências para a humanidade.

O ambiente marinho foi dividido pelo homem, para fins de uso e guarda. No Brasil a Lei 8.617/93 divide o território marítimo quatro zonas: 1) mar territorial, que é uma faixa de 12 milhas marítimas de largura, medidas a partir da linha de baixa-mar do litoral continental e insular; 2) zona contígua, uma faixa que se estende das 12 às 24 milhas marítimas; 3) zona econômica exclusiva, que consiste em uma faixa que se estende das 12 às 200 milhas marítimas; 4) plataforma continental, que compreende o leito e o subsolo das áreas submarinas que se estendem além do seu mar territorial.

Além destas zonas demarcadas, temos o alto mar, onde nenhum Estado pode invocar soberania, sendo, a todos, inclusive aos que não tem costa marítima, assegurada a liberdade de pesca e de navegação, entre outras (Convenção, artigo 86).

Vejamos agora as principais causas da poluição marinha. Ao pensar no tema vem-nos à mente aquela causada por vazamento de navios e embarcações de menor porte. No entanto, segundo Dario A. P. Freitas “cerca de 82% da poluição marítima decorre de atividades terrestres. Entre estas pode-se mencionar as emissões de esgoto, descargas industriais, agrotóxicos levados pelas águas das chuvas, acúmulo de lixo, poluição carregada pelos rios e pelo ar, provenientes dos veículos e indústrias, etc.[iii]

A estas causas acrescenta-se uma mais recente: a poluição por plásticos lançados às águas do mar. O plástico “provoca ferimentos nos animais marinhos que se entrelaçam nas peças maiores e confundem-no, aos pedaços mais pequenos, com comida. A ingestão de partículas de plástico pode impedi-los de digerir os alimentos normais e originar poluentes químicos tóxicos nos seus organismos”.[iv]

Os problemas causados pelos plásticos nas águas marítimas, que incluem a formação de uma ilha entre o Haway e a Califórnia que, segundo a Scientific Reports, tem uma área de cerca de mais de duas vezes o território da França[v], foi objeto de deliberação da União Europeia em 27 de março de 2019, com vigência a partir de 2021, que proíbe o uso de plásticos descartáveis se houver alternativas feitas de outros materiais no mercado e, caso não hajam,reduzir seu consumo em nível nacional, aumentar as exigências para a produção e rotulagem, criando, ainda novas obrigações para os produtores em relação à gestão e resíduos.[vi]

Dentro deste preocupante quadro surgiram em 2015 os 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU, que devem ser cumpridos até 2030 e que “são um apelo global à ação para acabar com a pobreza, proteger o meio ambiente e o clima e garantir que as pessoas, em todos os lugares, possam desfrutar de paz e de prosperidade”.[vii]

Ressalte-se que o conceituado Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA), lançou a Série Cadernos ODS, com minuciosa análise dos desafios e possibilidades de cumprimento de tais objetivos pelo Brasil.[viii] Eles constituem a base teórica das considerações aqui feitas

A poluição dos oceanos está prevista na ODS 14 que invoca a:

Conservação e uso sustentável dos oceanos, dos mares e dos recursos marinhos para o desenvolvimento sustentável”.

A partir desta premissa básica, a ODS14 divide-se em 7 objetivos e mais 3 itens. Vejamos as que se mostram próximas da realidade brasileira.

O Objetivo 14.1 propõe que até 2025, se previna e reduza significativamente a poluição marinha de todos os tipos.O saneamento foi objeto da recente Lei 14.026/2020, que busca maior eficiência a esse relevante serviço. O turismo tem regras precisas e controle dos órgãos ambientais. Porém há duas variáveis consideradas no indicador da meta 14.1 a necessitar de providências: monitoramento da nossa longa costa marítima, com dados sobre o nível de eutrofização (processo de poluição que torna a água turva ou esverdeada) e densidade de detritos plásticos flutuantes. Aqui devem ser direcionados os esforços.

O Objetivo 14.2 fixa 2020 como prazo para que o Brasil possa gerir de forma sustentável e proteger os ecossistemas marinhos e costeiros. Segundo conclusão dos estudos do Ipea, é necessário implantar um sistema de monitoramento que passe a levantar os dados necessários para a mensuração do indicador original. É o que se tem a fazer.

O Objetivo 14.3 propõe minimizar e enfrentar os impactos da acidificação dos oceanos, que pode ser causada por formas diversas, como a utilização de motores que utilizam combustíveis fósseis, o desmatamento e a industrialização excessiva. Estas condutas provocam a absorção de dióxido de carbono (CO2) da atmosfera. Ocorre que isto é um fato não monitorado ao longo da extensa costa brasileira, o que torna difícil diminuir a acidez do oceano. Uma vez mais, reclama-se acompanhamento.

O Objetivo 14.4 é urgente. Propõe que até 2020, seja regularizada a pesca, acabando-se com a sobrepesca, com a pesca ilegal, não reportada (não informada ou informada erroneamente à autoridade) e não regulamentada. Por sua vez o Objetivo 14.6 ambiciona até 2020, proibir certas formas de subsídios à pesca, que contribuem para a sobrecapacidade e a sobrepesca, e eliminar os subsídios que contribuam para a pesca irregular. Finalmente o Objetivo 14 B visa proporcionar o acesso dos pescadores artesanais aos recursos marinhos e mercados.

A pesca é uma atividade econômica de grande importância, empregando milhares de pessoas que em grande parte trabalham por conta própria e na informalidade. Apesar de sua importância social e econômica, as informações disponíveis sobre a pesca marinha sugerem que esta passa por um processo de exaustão. O último boletim nacional de estatística pesqueira foi publicado em 2011.[ix]

Registre-se que a fiscalização, da zona costeira à plataforma continental, é deficiente. O Ibama não tem estrutura adequada. A Marinha de Guerra, que tem poderes de fiscalização (artigo 70, parágrafo 1º, da Lei 9.605/1998), não tem por vocação a proteção do meio ambiente. Já passou da hora de termos uma guarda costeira, com poderes de fiscalização ambiental, além de atividades contra o contrabando e o tráfico de drogas.

Neste particular é preciso que os financiamentos dos bancos e órgãos de investimentos fiquem restritos às companhias pesqueiras que atuem na legalidade e que revelem preocupações sociais e ambientais.

As demais metas da ODS 14 não guardam relação mais próxima com a nossa realidade, o que torne desnecessário comentá-las.

Exposta, assim, a situação da poluição marinha, os objetivos perseguidos pelas ODSs da ONU, vejamos o que nós temos a ver e o que podemos fazer para melhorar a situação existente. Óbvio que aqueles que detém posição de mando têm maiores possibilidades de agir, mas o dever é de todos, conforme artigo 225 da Constituição. Eis algumas formas de ação:

1) Divulgação e consciência das ODSs, pois elas pertencem e são do interesse de todos e não apenas da ONU;

2) Mudança de hábitos, reduzindo o consumo ao realmente necessário, rejeitando plásticos envolvendo produtos (p. ex., comprados em farmácias) e enviando mensagens às indústrias que se valem de invólucros enormes e desnecessários;

3) Educação Ambiental: lutar pela revogação do artigo 10, parágrafo 1º, da Lei 9.795/99, a fim de que meio ambiente seja uma matéria e não algo a ser dado por todos professores.

4) Criação da Guarda Costeira Nacional.

5) Restringir financiamentos e suspender subsídios àqueles que não adotam a sustentabilidade ambiental e social.

Façamos, cada um, o que está ao nosso alcance. Escolhamos parlamentares comprometidos e cobremos ações. Este é o nosso compromisso ético com as futuras gerações.

[i] A Convenção de Montego Bay foi internalizada na ordem jurídica brasileira através do Decreto 99.165/1990. Disponível em: https://www2.camara.leg.br/legin/fed/decret/1990/decreto-99165-12-marco-1990-328535-publicacaooriginal-1-pe.html. Acesso em 02/10/2020.

[ii] Brasil Escola. Poluição marinha. Disponível em: https://brasilescola.uol.com.br/geografia/poluicao-marinha.htm. Acesso em 30/9/2020.

[iii] FREITAS, Dario Almeida Passos de. Poluição Marítima. Legislação, doutrina e jurisprudência. Curitiba: Juruá,2009, p. 17.

[iv] Plástico nos oceanos: os factos, os efeitos e as novas regras da EU. Disponível em: https://www.europarl.europa.eu/news/pt/headlines/society/20181005STO15110/plastico-nos-oceanos-os-factos-os-efeitos-e-as-novas-regras-da-ue. Acesso em 2/10/2020.

[v] Disponível em: https://revistagalileu.globo.com/Ciencia/Meio-Ambiente/noticia/2018/03/ilha-de-lixo-no-oceano-pacifico-e-16-vezes-maior-do-que-se-imaginava.html

[vi] União Europeia aprova legislação para banir produtos plásticos descartáveis. Disponível em: https://g1.globo.com/natureza/noticia/2019/03/27/uniao-europeia-aprova-legislacao-para-banir-produtos-plasticos-descartaveis.ghtml. Acesso em 2/10/2020.

[vii] Organização das Nações Unidas. Disponível em: https://brasil.un.org/pt-br/sdgs. Acesso em 2/10/2020.

[viii] Ipea analisa situação do Brasil frente aos 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável. Disponível em: ttps://www.ipea.gov.br/portal/index.php?option=com_content&view=article&id=34865&Itemid=9.Acesso em 2/10/2020.

[ix] Disponível em: https://www.icmbio.gov.br/cepsul/images/stories/biblioteca/download/estatistica/est_2011_bol__bra.pdf. Acesso em 3/10/2020.

Revista Consultor Jurídico

Ciência para o desenvolvimento sustentável dos oceanos

A Organizações das Nações Unidas (ONU) estabeleceu, para os anos de 2021 a 2030, a Década da Ciência Oceânica para o Desenvolvimento Sustentável. O propósito é incentivar pesquisadores, governos e sociedade civil a desenvolver ações que ajudem a cumprir o objetivo número 14: “Vida na água”, da lista dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), cujo tema é a “conservação e uso sustentável dos oceanos, dos mares e dos recursos marinhos para o desenvolvimento sustentável”. A ideia é utilizar a ciência e tecnologia para alcançar sustentabilidade da vida marinha, uma mobilização que se mostra urgente devido a uma série de fatores, entre eles a poluição nos oceanos e áreas costeiras.

De acordo com a bióloga Leticia Cotrim da Cunha, professora da Faculdade de Oceanografia da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ), a biodiversidade do planeta está ameaçada tanto pela ação indireta das mudanças climáticas quanto pela ação direta do homens. Ela destaca que a poluição nos oceanos ocorre devido a substâncias químicas e materiais (contaminantes, plásticos, sedimentos), organismos patogênicos e invasores, aumento da temperatura (mudanças climáticas) e até o som (embarcações de recreação e mercantes), que alteram o comportamento de mamíferos marinhos na água.

Raquel Peixoto, professora do Instituto de Microbiologia da UERJ, salienta que são diversos agentes locais e globais que contribuem de forma isolada ou combinada para a degradação da vida marinha, como o aquecimento global, despejo de esgoto sem tratamento, lixiviação de químicos de áreas agrícolas e outras atividades. “Os diferentes ecossistemas marinhos estão conectados pela troca constante de nutrientes e de organismos que, muitas vezes, habitam diferentes ambientes dependendo da sua fase de vida, como na época da reprodução. Se um desses ecossistemas se modifica, todo o ciclo biológico desse organismo é afetado e ele pode ser fortemente impactado ou até mesmo extinto”, alerta. “Alguns pesquisadores já demonstraram que recifes de corais podem influenciar o regime de chuvas de uma determinada região e que, quando estressados, podem atrair mais nuvens e chuvas para si mesmos, o que poderia, talvez, afetar negativamente o regime de chuvas em áreas agrícolas”, exemplifica.

As regiões costeiras são as que mais sofrem com a poluição devido à proximidade das fontes poluidoras. “Cerca de 60-65% da população do planeta vive na faixa de 100 km a partir da linha de costa e perto de 2/3 das megacidades do planeta (cidades com mais de 3 milhões de habitantes) estão localizadas em zonas costeiras ou estuarinas”, destaca Cunha. “Sem contar que a poluição de estuários e baías também afeta a pesca e o turismo/recreação, fontes importantes de renda para muitos países que movimentam diversos setores da economia”, completa.

Há ainda o problema da acidificação dos oceanos provocada pelo excesso de gás dióxido de carbono (CO2) emitido pela atividade humana. “É resultado da queima de combustíveis fósseis, atividades agropecuárias e produção de cimento. Os oceanos assimilam cerca de 25-30% das emissões humanas de CO2 e a ‘entrada’ desse gás na superfície dos oceanos altera parte do equilíbrio químico da água do mar”, explica Cunha.

É PRECISO FAZER MAIS

Para Peixoto, apesar de existirem ações locais e globais de preservação dos oceanos, como criação de áreas de preservação e proteção, controle de pesca de alguns animais ameaçados, tentativas de se investir mais em energias alternativas e minimizar as emissões de CO2, é preciso fazer muito mais. “Os primeiros efeitos reais do aquecimento global são a perda maciça de grandes áreas de recifes de corais (cerca de 30-50% dos corais do mundo) nos últimos anos. Algumas estimativas apontam que eles possam ser até mesmo completamente extintos nas próximas décadas. Entretanto, inúmeros outros organismos marinhos estão altamente ameaçados e sofrendo grandes impactos causados pelas mudanças climáticas, não apenas devido ao aquecimento dos oceanos, mas também à consequente acidificação dos mesmos”.

A bióloga da UERJ atua em projetos voltados para a compreensão da acidificação dos oceanos e outras alterações dos ciclos biogeoquímicos marinhos. “Em 2012, ajudei a criar a Rede Brasileira de Pesquisa em Acidificação dos Oceanos, BrOA (www.broa.furg.br), juntamente com o professor Rodrigo Kerr, da Universidade Federal do Rio Grande (Furg). A rede hoje funciona como um grupo de pesquisa, registrado no diretório nacional do CNPq, e conta com pesquisadores de mais de 10 instituições brasileiras. São grupos que se ocupam de observações dos oceanos, mas também de trabalhos sobre os impactos da acidificação na biodiversidade e no desenvolvimento de organismos-chave, como os corais”, conta. Já Peixoto trabalha no Centro de Pesquisas AquaRio, que conseguiu diminuir, de forma significativa, o branqueamento do coral da espécie Pocillopora damicornis, por meio da aplicação de um probiótico composto especificamente por bactérias isoladas do próprio coral e, portanto, nativas. “O branqueamento é causado pelo aumento de temperatura e/ou inoculação de patógenos”, explica.

A partir da repercussão positiva desses resultados e apresentação em conferências internacionais foi criada a rede internacional BMMO (em português: Microorganismos Benéficos de Organismos Marinhos), da qual Peixoto é coordenadora. “Reunimos alguns dos maiores especialistas em organismos marinhos e suas microbiotas de onze países (Brasil, Portugal, Alemanha, Estados Unidos, Israel, Arábia Saudita, Austrália, Holanda, Inglaterra, Colômbia e Curaçao). Através da rede, que já organizou duas reuniões científicas e obteve financiamento, temos colaborado e planejado experimentos em diferentes desses países, na tentativa de não apenas melhorar o uso de probióticos de corais e sua segurança, mas também formas de escalonar esse uso e poder aplicá-lo em campo”, esclarece Cunha.

Com essa ideia, o grupo de pesquisa foi um dos cinco finalistas no desafio mundial lançado pela Fundação Grande Barreira de Corais, da Austrália, na busca por soluções que possam salvar a Grande Barreira de Corais, eleita patrimônio mundial pela Unesco e uma das principais atrações turísticas daquele país. “O Brasil, nesse caso, ficou em posição de destaque, já que nossa proposta foi a única liderada por um grupo de fora da Austrália a ser selecionada como finalista, o que nos dá orgulho e muita vontade de continuar investindo nessa pesquisa”, comemora a pesquisadora.

COOPERAÇÃO BRASIL-NORUEGA

Uma rede multidisciplinar de cooperação entre Brasil e Noruega trabalha na proteção da biodiversidade marinha. “O objetivo principal é aumentar o conhecimento sobre os ambientes de oceano profundo e estimular parceiras para novos projetos de desenvolvimento e inovação. E, finalmente, criar políticas de monitoramento ambiental e conservação marinha aplicáveis ao Brasil e Noruega”, detalha Claudia Erber, bióloga marinha, que chefia um centro ambiental na costa da Noruega. Erber trabalhou, no projeto piloto, a bordo de um navio submarino (DeepOcean/Shell), analisando imagens da fauna marinha. “As empresas do setor de energia utilizam comumente tecnologias submarinas para inspecionar e fazer manutenção das estruturas marinhas. São tecnologias de ponta que agregam valor em suas operações e os cientistas aumentam o conhecimento sobre o oceano profundo de maneira prática e ‘barata’ “, explica a pesquisadora. Essa colaboração bilateral será de grande valia para ambos os países em termos de novos negócios e melhores estratégias para a conservação marinha. Segundo Erber, a Noruega possui capital de investimento e background em tecnologia submarina e o Brasil possui os recursos naturais e uma cadeia de suporte de indústria de energia de alta competência. “Os novos campos de exploração de petróleo no pré-sal em poços ultra profundos (mais que dois mil metros), no Brasil, são uma oportunidade para o desenvolvimento de novas tecnologias submarinas para acessar o oceano profundo e prover informações importantes para a criação de banco de dados sobre a fauna desse ecossistema, ainda muito desconhecida”, finaliza.

Autor

Patricia Piacentini

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